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Ficção VS realidade

por Carlos, em 26.03.18

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E quando a ficção sem querer imitou a realidade?
Não queria escrever dois artigos seguidos em que o tema cinema estivesse implícito, contudo por muito que não queira, não me sai da cabeça esta estranha coincidência!
Este sábado, refastelado no sofá, fazia zapping por entre os canais telecine, a ver se algum filme me interessava, parei no tvcine 2! Em exibição um filme Francês, ‘Cuidar dos Vivos’ e eu deixei-me ficar a ver, até porque teria começado há minutos.
E então, vou partilhar convosco o que o filme me mostrou, mas não poderei deixar de dizer o que na verdade eu vi e senti.
Em traços gerais, um jovem de 17 anos juntamente com dois amigos tiveram um gravíssimo acidente! Encaminhado ao hospital, este jovem é sujeito a uma panóplia de exames que culminam com o pior diagnóstico, morte cerebral irreversível! O telefone tocou em casa da mãe, a mesma que recorre imediatamente ao hospital, pelo caminho tenta ainda falar com o marido! No gabinete médico recebem em conjunto a triste notícia de que nada mais haveria a fazer. No entanto, sem tempo de se refazerem do choque, um médico tenta com as palavras mais fáceis num momento tão difícil, perceber se os pais autorizam a que os órgãos do jovem sejam doados a quem neste momento deles precisam! Após umas horas, em que o filme se desenrola fora do contexto hospitalar, os mesmos regressam e aceitam a doação a terceiros dos respetivos órgãos,  com o único senão, de que os olhos deste fossem mantidos intactos.
É claro que do filme muito haveria a falar, existe a outra parte da história, mas essa fica para quem de vocês tiver curiosidade em ver!
Agora vou partilhar convosco o que eu vi na verdade e o que senti, pois inevitavelmente emocionei-me, ainda que… me tenha custado muito mais a realidade!

Numa manhã de sexta-feira no inicio de Julho, corria o ano de 2004, o telefone tocou em casa daquele casal, a mãe atendeu o telefone, onde lhe deram conta de que o filho com 21 anos, que já não vivia com eles tinha tido um acidente e estaria em estado muito grave num hospital da região parisiense.
Esta ligou com o marido, encontraram-se e rumaram ao hospital!
Esta mãe e este pai, a minha cunhada e o meu irmão, não imaginavam sequer o que lhes esperava, nem tão pouco a gravidade com que iriam encontrar o filho, o meu sobrinho!
Chegados ao hospital, imediatamente foram reencaminhados para o gabinete médico e pelo que nos contaram a conversa foi mais ao menos a mesma que pude assistir no filme!
O meu sobrinho estava numa situação irreversível, o acidente projetou-o pela janela do carro e assim que embateu com a cabeça no chão os danos foram de tal ordem que entrou imediatamente em coma, sendo que mais tarde no hospital perceberam que já estaria em morte cerebral!
Na mesma hora, no mesmo local, e como em França a lei dita que terá de haver uma autorização para que haja a doação dos órgãos, foram confrontados com essa possibilidade!
Eu acredito que não deva ser fácil, levo isto quase como após um choque tremendo que é perceber que o filho morreu, é gozar com a nossa cara virem com estas tretas! Pelo menos a quente não deve ser nada fácil entender e tomar uma decisão destas.
Ainda assim, os pais aceitaram doar os órgãos do meu sobrinho com a condição, reparem bem na coincidência, que não tocassem nos olhos do mesmo!
Não vi este filme de ânimo leve, para mim foi quase ver ali o meu irmão e a minha cunhada, até ao momento em que ambos se despedem do filho! Difícil de controlar as emoções.
Vi naqueles pais a dor deles, a mesma que presenciei nos dias seguintes, porque a família que pôde, em menos de 24 horas colocou-se lá, do lado deles, neste momento que foi para mim e continuará a ser dos maiores choques que levei na vida! Pois ali perdi um sobrinho que tinha para mim como mais do que um amigo, um irmão e depois, do lado de cá, em Portugal fui eu que recebi o telefonema, onde logo percebi que o pior havia acontecido!
São coincidências, eu sei, mas confesso que me deixou a pensar...

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49 comentários

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De Happy a 26.03.2018 às 08:25

Nunca vi... vou colocar na lista!
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De Happy a 26.03.2018 às 08:26

E isso porque tive uma perda semelhante e às vezes ver esses filmes serve um pouco de catarse...
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:06

Beijinho.
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:05

Como filme isolado, é um pouco parado, mas que nos deixa a pensar...ah claro que deixa!
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De A Desconhecida a 26.03.2018 às 09:17

Bem... Um filme deveras emocionante... E uma história bem real... Lamento a tua perda, Carlos. Beijinho grande!
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:06

Obrigado cara amiga!
Beijinho.
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De marta-omeucanto a 26.03.2018 às 09:50

Lamento muito Carlos. Não deve ser nada fácil.
Acho que no lugar dos pais, também não reagiria muito bem com essa questão colocada assim a quente.
A maior parte das vezes, a ficção imita a realidade, e a realidade acaba por "copiar", sem o saber, a ficção. Penso que é isso que nos faz, de certa forma, gostar e identificar-mo-nos mais com determinados filmes.
Uma boa semana!
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:07

Não foi fácil na altura e acredito que existem decisões que acompanharão os pais para toda a vida!
Obrigado!
Beijinho.
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De Paula Rocha a 26.03.2018 às 10:00

Desculpa, não tenho palavras
Beijinhos
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:07

Obrigado!
Beijinho.
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De Sara Carmo a 26.03.2018 às 11:03

Até a mim me vieram as lágrimas aos olhos ao ler este teu artigo. Ninguém consegue imaginar o que pais como o teu irmão e cunhada sentiram naquele momento. O filme ajuda a perceber, mas nunca deve ser a mesma coisa.
A questão da doação dos órgãos é um assunto tão delicado que não deveria ser abordada na altura que foi, mas por outro lado compreendo a posição dos médicos: quanto mais esperarem, menos órgãos irão estar em condições de doar. Isto é sem dúvidas o que se chama de um dilema ético que os profissionais de saúde (e outros) tanto lutam contra e cuja resposta correta não existe.

Beijinhos e boa semana.
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:09

Com o passar das horas os orgãos começam a falhar! Oficialmente apenas 36 horas depois ele foi dado como morto efectivamente! Já todos estávamos a acompanhar os pais dele.
Obrigado.
Beijinho.
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De Chic'Ana a 26.03.2018 às 11:07


Não tenho palavras.. estou arrepiada, triste.. com o sentimento de que "A vida deveria ser perfeita, deveríamos viver BEM, falecer já velhinhos, rodeados de netos ou pessoas que nos querem bem..." ... A vida não é perfeita! =(
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:10

A perfeição não existe na verdade, mas caramba, ninguém merece passar por isto!
Obrigado!
Beijinho.
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De Sónia Azevedo a 26.03.2018 às 11:39

olha fiquei sem palavras..................
bjinho grande
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:10

Obrigado!
Beijinho.
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De Quarentona a 26.03.2018 às 11:55

Deus me livre de algum dia ter que tomar uma decisão dessas... :(((
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:10

Não é mesmo nada fácil!
Beijinho.
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De Ladys a 26.03.2018 às 12:41

Triste, muito triste :(. Beijo grande. Marina
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:11

Obrigado Marina!
Beijinho.
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De gatodeloiça a 26.03.2018 às 12:58

Confesso que não li o teu post, só a primeira frase, e comento quantas vezes a realidade não ultrapassa a ficção!
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De Carlos a 26.03.2018 às 15:11

Muitas vezes mesmo...
Beijinho.

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